Conversão Analógico-Digital e Digital-Analógico

Quando um sistema de tempo contínuo for controlado por um computador, tem que haver as conversões acima: a 1a, porque o computador só entende dados discretizados no tempo, isto é se um sinal r(t) deve ser processado por um computador, ele deve ser transformado numa coleção finita de números: com efeito, um sinal de tempo contínuo tem um no infinito de informações, a saber, o valor de r(t) em cada instante t de um intervalo contínuo [0 , T]. Como o computador digital não é capaz de processar no infinito de informações, o sinal deve ser discretizado no tempo. Quem faz isto é o amostrador, que transforma o sinal contínuo num sinal discreto
 

onde  é o intervalo de tempo entre duas amostragens. (Supõe-se, o que ocorre na imensa maioria dos casos práticos, que o intervalo de tempo entre 2 amostragens, , se mantém constante. Caso isto não ocorra, o problema se torna extremamente complicado do ponto de vista matemático).
 

Um amostrador "instantâneo", i.e., que converta instantaneamente o sinal no instante t num pulso (número) no instante i, não existe na prática, pois todo sistema tem alguma "inércia", mesmo que extremamente pequena.

É claro que se o intervalo de amostragem, , for muito longo, perde-se muita informação a respeito do sinal. Um caso "dramático" seria, por exemplo, o da amostragem de um sinal senoidal que se fizesse com um intervalo de amostragem igual ao período da senóide:
 

Neste caso r(i) seria um "degrau", ou seja, r(i) = cte = 0 

Uma pergunta natural: qual deve ser o intervalo de amostragem de modo que o sinal original possa ser reconstruído a partir do sinal amostrado.

Seja  a transformada de Laplace e suponha que seja dado em função de w tal como abaixo:

[0 , wb] é chamada a "banda passante" (bandwidth) do sinal.

O famoso teorema da amostragem (devido a Shannon, demonstrado no fim dos anos 40’s) diz que o sinal r(t) pode ser reconstruído a partir de

.

Portanto, .

É claro que muito freqüentemente  não se anula a partir de alguma freqüência, mas vai se atenuando . O que se pode fazer, neste caso, é introduzir um filtro passa-baixa antes do amostrador.

O processo inverso, i.e., conversão de um sinal em tempo discreto para um sinal em tempo contínuo (conversão esta chamada digital-analógica) é feita por um "segurador" (hold).

O mais comum dos seguradores é o chamado de "ordem zero" (zero-order hold) que mantém cte. o valor do sinal no intervalo entre duas amostragens , i.e.
 

O segurador de 1a ordem toma o valor médio do sinal nos 2 instantes anteriores, o de 2a ordem utiliza 3 instantes, etc...

Seja um sistema de tempo contínuo:
 
(1)

Sabemos que

Seja  t0 := i, t=(i+1).

Então, supondo u() = u(i) cte. em  [t0, t], vem
 
(2)

Seja

Definamos
 
(4)

Integrando (4), vem

Consequentemente, se   for não-singular. obtemos:

Então,

x[(i+1) . ] = A . x(i) + B.u (i)

Omitindo  no argumento, para simplificar, por ser cte., vem:
 
x ( i + 1) = A . x(i) + B.u(i)
y(i) = C.x(i)
(3)

onde 

As equações (3) foram obtidas a partir de um sistema de tempo contínuo supondo cte. u(.) durante o intervalo entre duas amostragens. Ou seja, o sistema (3), caso fosse parte de uma malha com controlador de tempo discreto (um computador), seria a seguinte malha
 

Alternativamente, podemos pensar no controle como uma seqüência de impulsos de intensidade u(i), ou seja, o impulso aplicado no instante ié

Então de (2) temos, com u (i)substituído por ,
 
(2a)

Ora, lembra-se a propriedade fundamental do impulso

onde ( - t0)é um impulso unitário aplicado no instante t0.

Usando esta propriedade em (2a), vem

Omitindo  no argumento para simplificar a notação, temos
 
x(i+1) = A.x(i) +B.u(i) (3bis)

onde, agora
 
(5)

(A expressão de A é a mesma de (4), mas a expressão de B é diferente). É claro que tal como em (4a), temos
 
(4a bis)

Exemplo

Voltaremos ao problema da amostragem e do seu processo inverso adiante, depois de nos aprofundarmos nos sistemas de tempo discreto, que é o que faremos a seguir.

As equações (3) são também as equações de um sistema "inerentemente" de tempo discreto: pense-se, por exemplo, num sistema econômico em que o "controle" são as medidas governamentais (tais como papel moeda injetado no mercado, fixação da taxa cambial, etc...) e o estado são variáveis tais como inflação, taxa de desemprego, taxa de crescimento do PIB, superávit da balança comercial, etc...). Tais sistemas já são formulados em termos de equações de diferenças e não de equações diferenciais.

Vamos então definir melhor isto.

Seja o sistema escalar (1 entrada e 1 resposta) regido pela seguinte equação de diferenças (geral):

y(i+n) + pn-1 y(i+n-1) + … + p1 y(i+1) + p0 y(i)=

=qn-1 u(i+n-1) + … + q1 u(i+1) + q0 u(i) ; i = 0, 1, 2, … (6)

Esta equação é análoga à equação diferencial
 
(6a)

Observe-se que do ponto de vista formal, algébrico, as duas equações são idênticas. Assim, se definimos o operador p := d/dt para (6a)

e p := p[y(i)] = y(i+1)

vemos que as duas equações podem ser expressas por
 
pn . y +pn-1.pn-1.y + ... +p1.p.y +p0.y
= qn-1.pn-1.u + ... + q1.p.u + q0.u
(6b)

Ora, (6) descreve o comportamento de um sistema geral (escalar) de tempo discreto. E tal como fizemos no caso de tempo contínuo, podemos definir o estado do sistema (= variáveis internas do sistemas), o que nos leva às equações (3), i.e.
 
x ( i + 1) = A . x(i) + B.u(i)
y(i) = C.x(i)
(3bis)

(Sabemos construir as realizações canônicas controlável e observável). Dissemos que as equações (6) são a forma geral para descrever um sistema linear escalar de tempo discreto. Na realidade, poderíamos admitir a existência do termo qn u(i+n) no 2o membro de (6), o que acarretaria, em (3), uma equação da resposta do tipo

y(i) = Cx(i) + Du(i)

Na realidade, não há perda de generalidade em se supor que as equações sejam como (3), porque caso haja o termo independente D u(i), basta redefinir a resposta.

Mas neste contexto há uma diferença importante entre sistemas de tempo contínuo e sistemas de tempo discreto, a saber, nos sistemas de tempo contínuo podemos ter respostas do tipo

onde k é finito.

(Isto corresponde a função de transferência imprópria).

Mas para sistemas de tempo discreto, se a resposta for

y(i) = C.x(i) + D0. u(i) + D1.u(i+1) + D2.u(i+2) + ...+ Dk.u(i+k)

então, se k 1, o sistema é antecipativo ou não-causal, porque a resposta no instante i depende de valores futuros (i+1, i+2,..., i+k) do controle. Tais sistemas não existem certamente no domínio da física (ou pelo menos não foram encontrados até hoje). Se  fora do domínio da física, é uma questão interessante...

Voltemos às equações (3)

Seja x0 := x(0)

Então, x(1) = A.x0 + B.u(0)
 


 
(7)

Esta igualdade é o análogo da do tempo contínuo, a saber,

Compare-se cuidadosamente as equações de x(i) e x(t): observe-se que o que nesta última é eAt vira Ai; e note-se que o somatório de (7) é uma convolução discreta.

É claro que de (3) temos também, em vista de (7)
 
(8)

Tal como no caso do tempo contínuo a 1a parcela em (8) é chamada a resposta natural do sistema, enquanto que a 2a parcela é a resposta forçada.

Se x0 = 0, vem
 
(8a)

Definamos
 
H(i)=CAi-1 (10)

Então, de (8a), vem
 
(9)

H(i) é chamada resposta ao pulso (unitário)

Com efeito, de (8a), se u(0) = 1 e u(1) = u(2) = ... = 0, vem

y(i)=CAi-1B , i=1, 2, 3, ...

De novo, temos aqui a analogia com os sistemas de tempo contínuo para os quais vimos que a resposta ao impulso unitário aplicado na origem é CeAtB.

[Mas há aqui uma pequena discrepância com relação ao que foi dito acima, a saber, que o correspondente a eAt é Ai. A alternativa, seguida pelo livro, seria definir H(i)=CAiB. Mas o problema é que com esta escolha, H(i) deixa de ser resposta ao pulso na origem a qual é, como vimos acima,CAi-1B. Escolhemos manter a consistência de chamar H(i) resposta ao pulso na origem].